segunda-feira, 5 de abril de 2010

O papel das tecnologias na nova economia de baixo carbono

Admirável mundo novo


Por Ana Carolina Addario, Cristina Tavelin e Juliana Lopes, da Revista Idéia Social



O papel das tecnologias na nova economia de baixo carbono



Nas últimas décadas, vivenciamos uma revolução silenciosa, movida a bits e fibras ópticas. O avanço da tecnologia da informação superou apostas de futurólogos e ficcionistas. Novidades como realidade aumentada, telepresença, telefonia móvel, eletrodomésticos e equipamentos inteligentes pouco a pouco foram sendo incorporadas ao nosso cotidiano, influenciando novos comportamentos. Mas a grande mudança ainda está por vir e diz respeito a modelos de produção e estilos de vida mais sustentáveis. Nesse quesito, a tecnologia está na sua versão 1.0. Aos poucos os potenciais em campos como gestão eficiente de recursos, logística e desmaterialização deixam de ser desenvolvidos apenas em caráter experimental para ganhar o portfólio das empresas.



O setor de tecnologia e computação é visto como um dos mais sensíveis às questões socioambientais pelos consumidores. A série de pesquisas do Monitor de Sustentabilidade (saiba mais no dossiê sobre consumo responsável, na edição 17), realizada pela Market Analysis, constata essa percepção. Os resultados agregados para os 14 países, incluindo o Brasil, onde o Monitor acompanha as tendências desde 2001, apontam esse segmento como o de maior capital reputacional em matéria de sustentabilidade. Mesmo enfrentando menos prestígio socioambiental do que detinha no início da década, a indústria de TI e computação consegue manter uma folgada liderança em comparação com os outros setores.



“Em grande medida, essa vantagem decorre da convicção sobre seu baixo impacto ambiental, mas também de uma percepção criada de que esse setor observa uma ética de investimento no funcionário, contribui para a redução de despesas e está alinhado com uma das frentes nas quais se concentram as maiores expectativas de engajamento empresarial: a educação e a inclusão na modernidade”, explica Fabián Echegaray, diretor geral da Market Analysis.



Por outro lado o jogo não pode ser considerado ganho. “Na medida em que não apresentar respostas convincentes para questionamentos sobre a responsabilização pela coleta e reciclagem dos equipamentos, sua imagem de polidez ambiental poderá sofrer abalos”, adverte Echegaray.



As empresas de tecnologia começaram a considerar questões socioambientais tratando de seus processos internos, como redução do consumo de energia em data centers, e acabaram desenvolvendo soluções inovadoras para o mercado. “A TI ajuda a criar dados, armazenar e entender de forma inteligente essas informações. Se o pensamento estratégico por trás disso contemplar a sustentabilidade, obviamente esse instrumental permite avançar bastante em termos socioambientais”, afirma Vania Ferro, especialista em TI e principal executiva da 3Com no Brasil entre 1993 e 2001, comandando a chegada da empresa no País.

A capacidade da área de TI de tornar a informação mais acessível e ágil tem proporcionado grandes progressos econômicos e sociais. O relatório The Global Information Technology Report (2008–2009) destaca esse papel. “A tecnologia da informação e comunicação está constantemente revolucionando os processos produtivos, os acessos aos mercados e interações sociais. Ela também tem um impacto na eficiência dos governos, promovendo a transparência, melhores serviços e a comunicação para os cidadãos”, destaca o documento.



O desafio agora é trabalhar o triple bottom line, trazendo a sustentabilidade para o centro da estratégia, em busca de soluções que aliem benefícios econômicos, ambientais e sociais. “Primeiro, deve-se pensar em termos ambientais, em economia de espaço e de energia. Mas o uso de TI deve ser considerado também do ponto de vista de indicadores sociais, promovendo a inclusão por meio da democratização da tecnologia. Deve-se pensar a cadeia de valor de produção de modo a promover o desenvolvimento social”, destaca Vania.



Esse desafio passa pela revisão do próprio modelo de negócio, cuja premissa é a substituição no curto prazo. O formato de inovação baseado prioritariamente no produto e na introdução contínua de novidades no mercado vai radicalmente contra os princípios de sustentabilidade. Tereza Cristina Carvalho, diretora do Centro de Computação Eletrônica (CCE-USP), alerta que o consumo tem aumentado além da necessidade a partir do advento da internet. “As pessoas, há algum tempo, trocavam o celular a cada um ano e meio; hoje trocam de sete a oito meses porque surge um modelo com novos recursos. O próprio mercado cria essa noção de necessidade que leva as pessoas a consumirem mais do que o necessário. A dificuldade em reutilizar produtos é um problema. Algo pouco comentado é que a tecnologia tem um impacto social, vira um vício”, destaca.



Ainda que enfrente resistências, ao menos no que diz respeito à ruptura com o modo tradicional de fazer negócios, a sustentabilidade apresenta uma lógica bastante pragmática para a área de TI, como exemplifica Michael Wallace. Co-autor com Lawrence Webber do livro Green Tech: How to Plan and Implement Sustainable IT Solutions (Tecnologia verde: como planejar e implementar soluções de TI sustentáveis, ainda sem tradução para o português), Wallace lembra que as tecnologias verdes proporcionam economia de recursos se todo o ciclo de vida for observado. “Por exemplo, uma fonte de alimentação de um computador desktop com a certificação 80 Plus proporciona economia de US$ 30 por ano em redução no consumo de energia quando comparada à de um desktop padrão. Além disso, um computador desenvolvido com base na fácil separação e disposição de materiais é mais barato de descartar do que aqueles fabricados com alto nível de materiais tóxicos”, exemplifica Wallace.



Se utilizada de forma consciente, a tecnologia da informação desempenha um importante papel como ferramenta para tomada de decisão responsável. “Ao proporcionar informação de melhor qualidade e em tempo real, a TI permite que os indivíduos façam melhores escolhas em relação, por exemplo, ao consumo de energia”, afirma Wallace.

De acordo com a Global e-Sustainability Initiative (GeSI), o maior auxílio da tecnologia da comunicação e informação será possibilitar a eficiência energética em outros setores, proporcionando uma economia de carbono cinco vezes maior que o total de emissões de todo o setor em 2020 - hoje o segmento representa 2% das emissões globais.



O estudo Carbon Conections - quantifying mobile’s role in tackling climate change (Conexões de carbono - quantificando o papel dos móveis para combater as mudanças climáticas) dá uma ideia desse potencial. O relatório, produzido em parceria pela Accenture e Vodafone, destaca 13 oportunidades em cinco áreas-chave: desmaterialização; smart grid a partir do suporte à geração e venda de energia localmente; logística; gestão e planejamento de cidades e produção inteligente.



Na edição 19, a equipe de Ideia Socioambiental fez um levantamento com 10 empresas de tecnologia da informação e comunicação a fim de analisar como esse setor têm respondido aos desafios apresentados na transição para nova economia de baixo carbono.



Confira a seguir os esforços e investimentos destinados por cada uma dessas companhias a adaptação de modelos de negócios, processos produtivos e desenvolvimento de tecnologias sustentáveis.



Leia a matéria na íntegra e confira também a opinião de especialistas e apontamentos dos principais estudos sobre TI verde.

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