segunda-feira, 5 de abril de 2010

Mapa que pode proteger a natureza

Por Lucila Vilar, do Museu Emílio Goeldi




Pesquisadores do Goeldi produziram Mapa de Índices de Sensibilidade Ambiental para auxiliar na prevenção de acidentes ambientais na região da costa amazônica



Agência Museu Goeldi - Como monitorar uma região que apresenta elevados níveis de chuvas anuais, ampla plataforma continental, extensa área de manguezais e descarga de dezenas de rios no oceano? Por ter características tão únicas a região costeira amazônica merece atenção redobrada, principalmente no que se refere à prevenção de acidentes costeiros.



Pensando na necessidade de monitoramento do meio ambiente em áreas onde há exploração, produção e transporte de petróleo, derivados e substâncias poluentes, o Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG) realizou a pesquisa “Índices de Sensibilidade Ambiental ao derrame de óleo dos sedimentos de fundo na região portuária de Vila do Conde - Barcarena - PA”, desenvolvida pela bolsista Messiana Boulhosa, do Programa de Capacitação Institucional (PCI). Devido à sua qualidade e relevância, o trabalho foi um dos indicados pelo Museu Goeldi ao Prêmio Bolsista Destaque PCI, concedido pelo Ministério da Ciência e Tecnologia em 2009.



Orientado pelo pesquisador Amílcar Carvalho Mendes, da Coordenação de Ciências da Terra e Ecologia do Museu, o estudo fez parte do projeto PIATAM-mar II - Potenciais Impactos Ambientais do Transporte de Petróleo e Derivados na Zona Costeira Amazônica, que tinha por objetivo elaborar Cartas de Sensibilidade Ambiental ao Derramamento de Óleo (SAO) para a zona costeira amazônica. Financiado pela Petrobras, o PIATAM-mar II teve como parceiras equipes multidisciplinares compostas por pesquisadores de várias instituições dos estados do Pará, Amapá e Maranhão.



A área do estudo realizado por Boulhosa está localizada na margem direita do rio Pará, onde se encontra instalado o Terminal Portuário de Vila do Conde, no município de Barcarena, no Pará. De acordo com os especialistas envolvidos no projeto, nesta região há risco significativo de acidentes, pois ocorre intenso fluxo de navios e balsas que transportam produtos químicos e derivados de petróleo, em especial óleos de baixo ponto de fusão (BPF), usados em caldeiras.



O mapa de ISA - Para produzir o mapa de Índice de Sensibilidade Ambiental (ISA) dos sedimentos de fundo ao derramamento de óleo os pesquisadores realizaram a caracterização sedimentológica e hidrodinâmica da área investigada, que se faz através de estudos batimétrico (medição da profundidade das massas dos oceanos, mares e lagos), correntométrico (direção e velocidade das correntes) e de suas interações com os teores de areia, silte (fragmentos de rocha) e argila localizados no fundo do rio.



A equipe também analisou o comportamento do óleo BPF quando entra em contato com o sedimento de fundo e a possibilidade de remoção dessa substância. Ao final do procedimento, foi criado um mapa de ISA que delimitou quatro tipos de zonas: de sensibilidade baixa (ISA1), moderada (ISA2), alta (ISA3) e muito alta (ISA4).



Após dois anos de estudos, o mapa produzido pela pesquisa já pode ser usado em situações emergenciais e planos de contingência, e para a proteção de ambientes sensíveis aos danos gerados por um eventual derramamento de óleo, sendo uma ferramenta importante para subsidiar estratégias de prevenção e controle de acidentes durante as atividades de produção e transporte de óleo pelas companhias de petróleo.



Segundo os pesquisadores, a utilização de mapas de ISA pode se tornar a melhor estratégia de prevenção de acidentes, pois evita o custo elevado de operações de atividades de limpeza, pagamento de indenizações e a restauração dos ambientes que sofreram impactos ambientais. Nos últimos anos ocorreram vários casos deste tipo de acidente no litoral brasileiro, o que tem incentivado os órgãos e as empresas envolvidas a investirem, cada vez mais, na investigação de métodos, tanto preventivos como corretivos.



Óleo de Baixo Ponto de Fusão (BPF) - Uma característica singular desta pesquisa foi o tipo de substância analisada: o óleo de baixo ponto de fusão (BPF). Em geral, essa substância não é analisada nos estudos conduzidos pelo PIATAM-mar II, que trabalha com os Índices de Sensibilidades Ambientais a derrame de outros óleos, especificamente os derivados de hidrocarbonetos (compostos químicos formados por carbono e hidrogênio), como o óleo diesel, gasolina e querosene. Contudo, o óleo BPF foi escolhido como objeto de estudo por ser utilizado no abastecimento das caldeiras da ALBRAS, onde o desembarque é feito em Vila do Conde. Para Messiana Boulhosa, “a maior dificuldade da pesquisa foi chegar à metodologia adequada, uma vez que não tínhamos parâmetros de comparação e nem um trabalho parecido desenvolvido em nenhum lugar”.



Por ter um baixo ponto de fusão (temperatura na qual ocorre a mudança do estado sólido para o estado líquido), o óleo BPF não fica na superfície da água, ele afunda, e como já é complicado estabelecer mapas de ISA para substâncias que ficam na superfície, o desafio é maior para as que se acumulam nos leitos dos rios e mares. Segundo Amilcar Mendes, analisando os tipos de “fundo” pode-se identificar áreas que são mais vulneráveis a um acidente, pois seriam regiões onde o óleo tenderia a se acumular. “Esse é o primeiro estudo que conheço que trabalhou com ISA para sedimentos de fundo. É uma coisa nova, especialmente para a Amazônia”.



(Envolverde/Museu Emílio Goeldi)



http://www.envolverde.com.br/

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